Zhang, o agricultor chinês que cortou o próprio dedo após uma picada de cobra para tentar salvar a vida
Em 2019, um caso ocorrido na província de Zhejiang, na China, ganhou notoriedade internacional pelas suas consequências dramáticas e pela forma como expôs crenças populares profundamente enraizadas sobre picadas de cobra. O protagonista desta história foi um agricultor de 60 anos chamado Zhang que, convencido de que tinha sido mordido por uma cobra extremamente venenosa e dominado pelo pânico, tomou uma decisão radical: amputou o próprio dedo para tentar impedir que o veneno se espalhasse pelo corpo.

Zhang encontrava-se a cortar lenha numa zona montanhosa do distrito de Shangyu quando foi picado por uma víbora local conhecida como “cobra dos cinco passos”, cujo nome científico é Deinagkistrodon acutus. Na cultura popular da região, existe a crença de que esta serpente é tão letal que a vítima morreria após dar apenas cinco passos depois da mordedura. Acreditando firmemente neste mito, Zhang cortou imediatamente o dedo afetado, embrulhou a mão ferida e iniciou uma longa deslocação até ao hospital, percorrendo cerca de 80 quilómetros até Hangzhou.
Quando chegou ao Hospital de Medicina Tradicional Chinesa de Hangzhou, os médicos ficaram surpreendidos com o estado do paciente. Apesar de a cobra em causa ser venenosa, trata-se de uma espécie cujo veneno raramente é fatal quando existe assistência médica atempada. Os profissionais de saúde verificaram que Zhang não apresentava sintomas graves de envenenamento, como dificuldades respiratórias, dores intensas ou hemorragias, o que indicava que a situação nunca tinha sido tão crítica quanto ele imaginara.
Os médicos explicaram que a amputação do dedo foi totalmente desnecessária e que, do ponto de vista médico, cortar um membro não impede a disseminação do veneno pelo organismo, uma vez que este entra rapidamente na corrente sanguínea. A situação tornou-se ainda mais trágica porque Zhang deixou o dedo amputado no local da picada, o que impossibilitou qualquer tentativa de reimplante.
De acordo com os profissionais de saúde, este caso ilustra um problema recorrente. Todos os anos, milhares de pessoas dão entrada em hospitais chineses devido a picadas de cobra e uma percentagem significativa tenta métodos de primeiros socorros perigosos ou ineficazes antes de procurar ajuda médica. Entre essas práticas estão cortes na pele, ligaduras apertadas com cordas ou fios e outras intervenções baseadas em mitos, que podem causar infeções, gangrena e lesões permanentes.
A história de Zhang tornou-se um exemplo amplamente citado para alertar sobre os riscos da desinformação em situações de emergência. A resposta correta a uma picada de cobra passa por manter a calma, imobilizar o membro afetado, evitar movimentos desnecessários e procurar assistência médica o mais rapidamente possível. Intervenções improvisadas e extremas, como a amputação, não só não salvam vidas como podem causar danos irreversíveis.
O caso demonstra de forma clara como o medo e as crenças populares podem conduzir a decisões dramáticas com consequências para toda a vida, reforçando a importância da educação em saúde, sobretudo em zonas rurais onde o contacto com animais selvagens é mais frequente.