Wu Zetian: a imperatriz chinesa que governou disfarçada de homem
Durante grande parte da história da China, as mulheres foram afastadas do poder político e confinadas a papéis secundários na sociedade. No entanto, há uma figura que se destacou de forma absolutamente surpreendente: Wu Zetian, a única mulher que se tornou imperatriz reinante da China. Mas o que poucos sabem é que, para alcançar o trono supremo, Wu navegou por uma teia complexa de intrigas, manipulações e, segundo algumas versões da história, disfarces cuidadosamente calculados para assumir posições proibidas às mulheres – incluindo a adopção de trajes masculinos e atitudes tipicamente atribuídas aos homens da corte.

Wu nasceu no ano 624, durante a dinastia Tang, e entrou na corte imperial como concubina do imperador Taizong. Após a morte deste, foi enviada para um convento, como era costume. No entanto, conseguiu regressar à corte como concubina do filho de Taizong, o novo imperador Gaozong, de quem viria a tornar-se a esposa principal. A partir daí, começou uma ascensão sem precedentes.
Quando Gaozong adoeceu, Wu Zetian assumiu gradualmente as rédeas do poder. Começou por agir como consorte influente, depois como regente, e finalmente como imperatriz de pleno direito. Em 690, declarou-se oficialmente "Imperador" – não "Imperatriz-consorte", mas sim usando o título masculino de Huangdi, reservado exclusivamente aos soberanos homens. Mandou inclusive criar uma nova dinastia, a Zhou, interrompendo temporariamente a dinastia Tang. Esta decisão não foi apenas política; foi simbólica. Wu estava a afirmar que a sua autoridade era igual, senão superior, à dos homens que a tinham precedido. Adotou vestes imperiais masculinas, conduziu audiências nos mesmos moldes que os seus antecessores e exigia ser tratada como qualquer outro imperador.
Na sociedade confucionista da época, em que a ordem e a moralidade estavam rigidamente ligadas à autoridade masculina, isto era revolucionário – e profundamente chocante. Para consolidar o seu poder, Wu não hesitou em afastar rivais, inclusive familiares, e criar um elaborado sistema de espionagem. Foi uma governante implacável, mas também reformadora. Promoveu o mérito nos exames imperiais, investiu no desenvolvimento agrícola e apoiou o budismo, ganhando assim a lealdade de muitos sectores da sociedade.
Curiosamente, muitas das fontes sobre Wu Zetian foram escritas após a sua morte, em contextos hostis ao seu legado. Por isso, é difícil separar os factos da lenda. Alguns historiadores dizem que o seu "disfarce de homem" foi literal, com o uso de roupas masculinas e gestos tradicionalmente masculinos; outros acreditam que foi apenas simbólico – uma forma de se impor num mundo onde as mulheres não podiam governar. Seja como for, o seu acto foi de coragem e de audácia: usou todos os meios ao seu alcance para quebrar as barreiras impostas pelo seu género e sentar-se num trono que ninguém acreditava que pudesse ser ocupado por uma mulher.
Wu Zetian morreu em 705, já velha e doente, após ser forçada a abdicar. O seu nome foi quase apagado da história oficial, e o seu túmulo permaneceu misteriosamente sem inscrição durante séculos. Mas a sua memória sobrevive, precisamente porque rompeu com tudo o que era esperado. Governou como homem, mas foi mulher. Reinou num mundo que a rejeitava, mas fê-lo com firmeza, inteligência e uma notável visão política.
Ainda hoje, Wu Zetian continua a ser uma figura controversa, inspiradora e envolta em mistério. Foi ambiciosa? Sem dúvida. Cruel? Talvez. Mas foi também, acima de tudo, uma mulher que desafiou as regras do seu tempo – e venceu.