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Tempo de Conhecer

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Quando os mongóis espalharam a peste negra de propósito

Em meados do século XIV, o mundo assistiu a uma das maiores catástrofes da história humana: a peste negra. Milhões de pessoas morreram, cidades inteiras foram dizimadas, e durante anos a Europa, a Ásia e o Norte de África viveram sob o peso do medo e da morte. O que poucos sabem é que a propagação desta pandemia pode ter começado com um ato deliberado de guerra biológica – perpetrado pelos mongóis.

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O cenário deste episódio sinistro foi a cidade portuária de Caffa (hoje Feodósia, na Crimeia), uma colónia genovesa na costa do mar Negro. No ano de 1346, esta cidade encontrava-se sitiada pelas forças do Império Mongol, lideradas por Janibeg, um dos generais do que restava da glória dos grandes cãs. A cidade resistia com dificuldade ao cerco, mas a situação mudou radicalmente quando a peste irrompeu entre os soldados mongóis. De repente, os acampamentos foram tomados pelo terror da doença, e os cadáveres acumulavam-se rapidamente.

Foi então que os mongóis tomaram uma decisão tão macabra quanto engenhosa: usaram os mortos como armas. Com recurso a catapultas, começaram a lançar os corpos infestados de peste por cima das muralhas da cidade. Os habitantes de Caffa, enclausurados e já debilitados, viram-se expostos não só ao inimigo, mas também à morte invisível que se espalhava pelo ar, pelos ratos, pelas pulgas e pelos restos contaminados.

Esta tática de guerra pode ser considerada um dos primeiros exemplos registados de guerra biológica. Não se tratava apenas de intimidar ou corromper os recursos do inimigo – era uma tentativa deliberada de disseminar uma praga mortal entre a população cercada, sabendo que o contágio podia ser devastador. A estratégia teve sucesso: a cidade foi enfraquecida e, eventualmente, muitos dos sobreviventes fugiram por mar, levando consigo a peste.

Foi precisamente através das rotas comerciais marítimas que a doença chegou a Constantinopla, depois à Sicília, e daí se espalhou rapidamente por toda a Europa. A fuga dos genoveses de Caffa pode ter sido o primeiro passo da pandemia que matou entre um terço e metade da população europeia nos anos seguintes. É uma ironia trágica: na tentativa de salvar-se do cerco, a cidade tornou-se o ponto de partida para um desastre muito maior.

A responsabilidade final pela propagação global da peste não pode ser atribuída exclusivamente aos mongóis, até porque a doença já existia noutros pontos da Ásia. Mas o episódio de Caffa permanece como um momento crucial, em que uma decisão humana acelerou de forma terrível a marcha da morte. A peste negra teria chegado à Europa de qualquer forma? Talvez. Mas a utilização dos cadáveres infetados como armas biológicas precipitou uma calamidade sem precedentes.

Hoje, olhando para trás, este episódio revela não só a brutalidade das guerras medievais, como também a profunda vulnerabilidade das sociedades da época perante o desconhecido. A peste não fazia distinções: ricos e pobres, reis e camponeses, todos foram atingidos. E no entanto, no seu início, tudo começou com um gesto calculado – um cadáver arremessado por uma catapulta, um ato de desespero e vingança que mudou o rumo da história.

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