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Tempo de Conhecer

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Quando a Rússia vendeu o Alasca por engano

Em 1867, o Império Russo vendeu aos Estados Unidos uma vasta e gelada região do outro lado do estreito de Bering. Chamava-se Alasca, e a transacção ficou registada como um acordo diplomático estratégico – mas com o tempo, muitos passaram a vê-la como um dos maiores erros da história russa. Embora não tenha sido exactamente um "engano" nos termos jurídicos, para muitos russos foi, sem dúvida, um erro colossal. Venderam um território rico em recursos por uma quantia que, em retrospectiva, parece irrisória.

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A venda foi concretizada por 7,2 milhões de dólares – cerca de dois cêntimos por acre. Na altura, o Alasca era visto como um território remoto, difícil de defender e de escasso valor económico. A Rússia, atolada em dificuldades financeiras após a Guerra da Crimeia e preocupada com a possibilidade de perder o Alasca sem compensação numa futura guerra contra os britânicos (que dominavam o Canadá), viu na venda uma forma de se livrar de um "fardo".

O negócio foi promovido pelo czar Alexandre II e aceite de braços abertos pelos Estados Unidos, que atravessavam um momento de expansão e recuperação após a Guerra Civil. A compra foi negociada pelo Secretário de Estado William H. Seward, um entusiasta da ideia que enfrentou críticas iniciais. Muita gente nos EUA achou que tinham comprado "uma geleira inútil", e a transacção foi apelidada sarcasticamente de "a loucura de Seward" (Seward’s Folly). Mas não demorou muito até que a realidade se revelasse bem diferente.

Décadas depois, a verdadeira dimensão do erro russo começou a tornar-se evidente. O Alasca revelou-se riquíssimo em recursos naturais: ouro, cobre, petróleo, gás natural, madeira, marisco e muito mais. A "geleira inútil" passou a ser uma mina de ouro literal e figurativa. Quando, no século XX, os EUA começaram a explorar em profundidade esses recursos, a decisão russa passou a ser vista como trágica e embaraçosa.

O curioso é que, na altura da venda, nem todos os detalhes do território eram conhecidos. Muitos cartógrafos russos não tinham ideia clara da riqueza escondida nas terras vendidas. Para alguns historiadores, o verdadeiro "engano" foi essa ignorância – ou pelo menos uma grave subestimação do potencial económico do território. Outros acreditam que houve mesmo negligência e precipitação política, num momento em que o Império Russo começava a dar sinais de desgaste estrutural.

Hoje, o Alasca não só tem um valor económico incalculável como representa uma posição geoestratégica fundamental no Ártico e no Pacífico Norte. Com a mudança climática a abrir novas rotas marítimas e a intensificar disputas por recursos polares, a antiga colónia russa ganhou ainda mais importância no cenário global.

Assim, embora a venda do Alasca tenha sido legal, deliberada e até justificada por certos cálculos de curto prazo, tornou-se com o tempo num símbolo de erro imperial – uma decisão que os russos, se pudessem voltar atrás, provavelmente reconsiderariam. Afinal, é difícil não ver como um engano a troca de um território vasto, rico e estratégico por uma quantia que hoje não chegaria para comprar um prédio no centro de Moscovo.

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