Os grandes sismos de Lisboa: o que sabemos e o que falta descobrir
Lisboa sempre viveu sobre uma ferida geológica adormecida. Os grandes sismos que marcaram a história da cidade — o de 1755, o de 1531 e até outros mais antigos, hoje quase esquecidos — são apenas episódios de um fenómeno que acompanha a própria existência do território. Apesar de séculos de estudos, mistérios permanecem. A terra sob Lisboa tremeu, treme e voltará a tremer, e a ciência ainda procura compreender com precisão o onde e o quando.

O mais devastador de todos, o terramoto de 1 de novembro de 1755, ficou gravado na memória universal. Um abalo colossal, seguido de um maremoto e de incêndios que destruíram quase toda a cidade, vitimou dezenas de milhares de pessoas e alterou profundamente a forma como o mundo via os desastres naturais. Mas esse sismo não surgiu do nada: já no século XVI, em 1531, Lisboa fora arrasada por um outro abalo fortíssimo, que deixou milhares de mortos e fendas em igrejas e palácios. E ainda antes disso, há registos indiretos de um sismo de grande intensidade em 1356, de que pouco se sabe além das crónicas que falam de “terras abertas e águas revoltas”.
Os geólogos modernos acreditam que a maioria destes sismos têm origem na mesma região: a chamada Falha de São Vicente, uma zona de subducção ao largo do cabo com o mesmo nome, onde as placas tectónicas da Eurásia e de África se encontram. É uma área instável, que acumula lentamente energia durante séculos até libertá-la de forma brutal. Essa acumulação é impercetível no quotidiano humano, mas constante. Em termos geológicos, o tempo entre um grande sismo e outro é apenas um piscar de olhos.
Sabemos hoje que Lisboa está numa das regiões sísmicas mais complexas da Europa, mas o que falta descobrir é o verdadeiro comportamento das falhas submarinas que a rodeiam. Não existem registos diretos de todos os sismos anteriores ao século XVI, e a falta de vestígios arqueológicos claros torna difícil estabelecer padrões. A história sísmica da cidade baseia-se em crónicas, diários e documentos de conventos, onde se anotavam tremores, incêndios e fugas de população. São relatos preciosos, mas fragmentários.
Apesar disso, a ciência tem avançado. Estudos com sismógrafos modernos e simulações computacionais mostram que o próximo grande sismo, se ocorrer, poderá ter epicentro a sul de Lisboa, no mar, tal como o de 1755. O impacto seria diferente — as construções modernas resistiriam melhor —, mas a destruição seria inevitável.
O que falta descobrir é a periodicidade. Se os grandes sismos conhecidos ocorreram com intervalos aproximados de duzentos anos, a lógica geológica sugeriria que outro poderia acontecer por esta altura. Mas a natureza raramente obedece a calendários humanos. A única certeza é que Lisboa continua viva sobre uma terra em movimento.
Hoje, quando se caminha pelas ruas da Baixa Pombalina — erguidas sobre as ruínas da antiga cidade —, há algo de silenciosamente simbólico: cada pedra, cada arco e cada rua perfeitamente alinhada foram desenhados com o medo da terra em mente. Lisboa reconstruiu-se sobre as cinzas, mas nunca esqueceu que, debaixo dos seus alicerces, o chão tem memória e respira.