O português que criou um idioma artificial no século XIX
No século XIX, um português destacou-se num campo pouco comum: a criação de uma língua artificial. O seu nome era José de Jesus Maria de Souza, natural da cidade de Lisboa, e a sua invenção linguística, embora hoje quase esquecida, foi um dos primeiros projetos de uma língua internacional elaborada com intenção prática.

José de Souza era um homem culto e interessado pelas ideias de progresso que dominavam o espírito da época. Fascinado pela comunicação entre povos, sonhava com a criação de uma língua neutra que pudesse ser usada universalmente para ultrapassar as barreiras linguísticas que dificultavam o comércio, a diplomacia e o entendimento entre nações. Antes do famoso esperanto, que seria lançado apenas em 1887, o português já se tinha antecipado a esta tendência globalizante.
A língua que criou recebeu o nome de "Lingua Universalis" – uma expressão simples que refletia a ambição do projeto. O objetivo era criar um idioma fácil de aprender, sem as complicações gramaticais das línguas naturais, mas suficientemente expressivo para permitir a comunicação em qualquer área do conhecimento humano. Inspirou-se nas estruturas do latim e das línguas românicas, mas procurou eliminar as irregularidades e complexidades que tornavam o latim clássico uma língua difícil para o público comum.
O projeto de José de Souza foi apresentado em folhetos e pequenos tratados, impressos em Lisboa e enviados para centros académicos na Europa. Propôs um vocabulário reduzido e lógico, uma gramática simplificada e um sistema de conjugação verbal extremamente regular. Defendia que a sua língua poderia ser ensinada em poucos meses e que seria ideal para a ciência, o comércio e as relações internacionais.
Apesar do entusiasmo inicial de alguns círculos intelectuais em Portugal e no estrangeiro, a "Lingua Universalis" de José de Souza nunca chegou a ganhar uma adesão significativa. A falta de apoios institucionais, a dificuldade de promoção além-fronteiras e, sobretudo, o aparecimento de outros projetos semelhantes, acabaram por condená-la ao esquecimento. Contudo, a ousadia de um português em imaginar, no século XIX, um mundo unido por uma língua comum, mostra como as ideias de inovação e de fraternidade internacional já fervilhavam muito antes dos grandes movimentos do século XX.
Hoje, o nome de José de Jesus Maria de Souza raramente é mencionado nos compêndios de história das línguas artificiais. Mas o seu trabalho merece ser recordado como um exemplo pioneiro do espírito inventivo português – um homem que, com visão e criatividade, tentou aproximar povos e culturas através da palavra.