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Tempo de Conhecer

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O massacre do Rossio de 1838 e o confronto sangrento entre liberais e miguelistas

Em 1838, o Rossio de Lisboa transformou-se num dos palcos mais trágicos da história política portuguesa do século XIX. Num tempo em que o país ainda tentava curar as feridas da guerra civil entre liberais e miguelistas, uma explosão de ódio e vingança varreu as ruas da capital, culminando num massacre que deixou dezenas de mortos e gravou a sangue a memória da instabilidade que se vivia.

O Rossio no final do século XIX..jpg

A guerra civil terminara oficialmente em 1834, com a vitória dos liberais de D. Pedro sobre as forças absolutistas de D. Miguel. No entanto, a paz era apenas aparente. A sociedade estava profundamente dividida: os liberais, que prometiam progresso e liberdade, lutavam entre si por poder; os miguelistas, derrotados, mantinham viva a esperança de um regresso do rei exilado e o ressentimento pelas represálias sofridas. Lisboa, sempre inquieta, fervilhava de conspirações, rumores e medo.

Em 1838, a tensão atingiu o ponto de rutura. Uma série de boatos sobre uma conspiração miguelista para tomar o poder gerou pânico entre os setores liberais mais radicais. Numa manhã de verão, grupos armados de voluntários liberais, apoiados por milicianos e populares exaltados, invadiram as ruas em busca dos supostos conspiradores. O Rossio, coração da cidade, tornou-se o epicentro da fúria.

A violência começou com detenções arbitrárias e insultos, mas depressa degenerou num massacre. Soldados e civis armados abateram à queima-roupa vários homens acusados de simpatizarem com o antigo regime. Muitos foram arrastados pelas ruas, espancados e executados sumariamente. As casas e lojas de pessoas conhecidas por laços com a causa miguelista foram saqueadas, e os gritos misturavam-se com o som das descargas de espingarda.

As autoridades, divididas e hesitantes, demoraram a reagir. O governo liberal, enfraquecido e temeroso de perder o apoio popular, mostrou-se incapaz de controlar o caos. Só ao fim de várias horas é que a tropa regular conseguiu dispersar os grupos armados e restabelecer uma frágil ordem. O Rossio ficou coberto de corpos e sangue — símbolo da violência política que teimava em corroer o país.

O massacre do Rossio revelou até que ponto a sociedade portuguesa permanecia dilacerada entre o passado e o futuro. A vitória liberal, longe de trazer conciliação, abrira novas feridas. O medo e a desconfiança substituíam a esperança, e cada partido via no outro um inimigo a eliminar. Lisboa, que devia ser o centro da reconstrução nacional, tornava-se o espelho do caos político de uma época em que a liberdade e a vingança caminhavam lado a lado.

A memória desse dia sombrio desvaneceu-se com o tempo, mas o eco da violência de 1838 deixou uma marca profunda. O massacre do Rossio foi um aviso brutal de que nenhuma revolução está completa enquanto o ódio for mais forte do que a justiça.

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