Manuela Nicolosi: a árbitra italiana que desafiou o machismo no futebol e construiu uma carreira de coragem e resistência
Manuela Nicolosi não é uma árbitra qualquer — o seu percurso e as revelações que tem feito colocam-na como símbolo de resistência e coragem numa área tradicionalmente dominada por vozes masculinas. Numa recente entrevista ao Quotidiano Sportivo, ela desvendou os bastidores de uma carreira marcada por obstáculos invisíveis, por regras não escritas a exigir que ela fosse “menos visível” porque “atraía demasiado atenção”.

Com 45 anos, Nicolosi é uma figura conhecida no mundo do futebol, tendo dirigido mais de 200 jogos profissionais e participado em grandes competições, como os Jogos Olímpicos de 2016 e 2020. Em 2019, tornou-se a primeira italiana a arbitrar uma final do Mundial feminino, e ainda nesse ano assumiu o papel de assistente na Supertaça da UEFA entre Liverpool e Chelsea.
Mas o reconhecimento formal nem sempre resultou em igualdade de tratamento. Nicolosi contou que, em Itália, teve propostas para limitar o seu avanço — não por méritos técnicos, mas por uma impressão estética: “Todos os meus superiores me disseram: tens de ser menos visível, atraí demasiado atenção.” Em França, chegou a ficar estagnada na Série C porque, segundo lhe disseram, era “excessivamente visível”.
A árbitra confidenciou que chegou a pensar desistir. Partiu de Itália aos 20 anos porque percebeu que, apesar de deixarem mulheres chegar até certo nível regional, depois se erigiam barreiras intangíveis para limitar a progressão. O ambiente foi-lhe hostil em várias ocasiões: numa partida da Eccellenza (divisão regional italiana), após o jogo, treinadores e dirigentes ameaçaram-na, obrigando-a a refugiar-se no balneário e a chamar a polícia para sair com escolta.
Nicolosi também mencionou situações de assédio feitas por jogadores: insinuações, avanços, propostas indevidas — casos dos quais preferiu não detalhar. A sua resposta, firme, foi nunca ceder: “Nunca me rendi, por isso demorei tanto a forjar uma carreira.”
Atualmente, Manuela segue a carreira na Kings League, onde é uma das poucas árbitras envolvidas. Ali mantém o compromisso e o entusiasmo, mesmo ciente de que “novas regras, novos presidentes, mas sempre o mesmo arrojo” são exigidos para continuar a integrar um evento tão inovador e mediático.
A história de Manuela Nicolosi é mais do que uma narrativa individual: é um espelho das dificuldades estruturais que muitas mulheres enfrentam em contextos onde a competência é constantemente mediada por estereótipos visuais ou preconceitos subtis. As suas palavras chamam à reflexão: quantas outras profissionais desistiram no caminho, quantas foram silenciadas antes sequer de alcançar visibilidade?
O facto de hoje continuarmos a precisar de vozes como a dela, que denunciem os constrangimentos e nos recordem que talento e integridade não devem ser colocados à prova por motivos externos, mostra que o desporto — e em especial o futebol — ainda tem um longo caminho para percorrer. Manuela Nicolosi tem deixado claro que a sua presença ali nunca foi para “caber bem”, mas para ganhar o respeito e mostrar que arbitragem não é feita de visibilidade estética, mas de coragem, rigor e ética.