Longyearbyen: a cidade onde ninguém pode morrer
Existe uma pequena ilha na Noruega onde morrer é tecnicamente proibido há mais de um século. Trata-se de Longyearbyen, a principal povoação do arquipélago de Svalbard, situada a cerca de mil quilómetros do Polo Norte. Embora a proibição de morrer não seja uma lei formal inscrita em código legal, tornou-se uma regra prática e amplamente respeitada – e com boas razões.

Longyearbyen é uma das cidades mais a norte do planeta, construída sobre solo permanentemente gelado, conhecido como permafrost. E é precisamente esse detalhe geológico que explica o curioso interdito. Quando alguém morre ali, o corpo não se decompõe como aconteceria noutros locais. Em vez disso, congela-se e preserva-se quase intacto, mesmo depois de décadas. Durante o século XX, descobriu-se que cadáveres enterrados no cemitério local não se deterioravam, e que, nalguns casos, ainda se podiam detectar vestígios de vírus antigos nos tecidos congelados.
Esta descoberta tornou-se particularmente preocupante depois da Primeira Guerra Mundial, quando vítimas da gripe espanhola foram enterradas em Longyearbyen. Décadas mais tarde, cientistas constataram que as estirpes do vírus estavam ainda activas nos cadáveres congelados. A ameaça de um possível ressurgimento de doenças letais devido ao degelo ou a escavações acidentais levou as autoridades locais a tomar medidas drásticas.
Desde então, passou a ser regra não enterrar mortos em Longyearbyen. Se alguém estiver gravemente doente ou em risco de vida, é transferido de avião ou barco para o continente norueguês para receber cuidados médicos – e, se morrer, será enterrado lá. Mesmo os residentes mais antigos que morrerem não são sepultados na ilha. O cemitério local, pequeno e antigo, deixou de ser usado há muitos anos.
Curiosamente, esta regra insólita é apenas uma entre outras que fazem de Longyearbyen um lugar único. Os residentes não podem ter gatos (para proteger a fauna local), devem andar armados fora da cidade (por causa dos ursos polares), e a maior parte dos alimentos vem de fora, pois é impossível cultivar ali. Mas a proibição de morrer continua a ser a mais simbólica – um reflexo das condições extremas do local, onde até a morte tem de ser contida.
Assim, Longyearbyen tornou-se a cidade onde ninguém pode morrer, não por superstição ou decreto moral, mas por uma razão muito concreta: o solo não aceita a morte. E isso fez deste recanto gelado um dos lugares mais intrigantes e paradoxais da história humana.