História dos terramotos nas Beiras: uma sismicidade discreta mas persistente
A história sísmica da região das Beiras, no interior centro de Portugal, é feita de muitos tremores discretos ao longo dos séculos e de alguns abalos sentidos com maior intensidade, embora nunca tenha sido epicentro dos grandes terramotos que abalaram o país ao longo da história. Esta zona está longe das áreas de maior risco sísmico, como a falha do Vale Inferior do Tejo ou a fronteira da placa tectónica no Atlântico sul‑sudoeste, mas mesmo assim regista actividade sísmica que tem sido documentada de forma mais consistente nos últimos séculos.

O terramoto de 1 de novembro de 1755, conhecido como o terramoto de Lisboa, é o mais famoso da história portuguesa e um marco na sismologia. Apesar de o seu epicentro se situar no Oceano Atlântico, a sul da Península Ibérica, este abalo, estimado entre 8,7 e 9,0 na escala de momento, foi sentido com intensidade em vastas áreas do país, inclusive nas Beiras, provocando pânico e efeitos sentidos longe do epicentro principal. Este evento cataclísmico mudou a forma como os terramotos foram estudados e interpretados em Portugal e no mundo.
Nos anos seguintes, como em 31 de março de 1761, outro grande sismo de magnitude estimada em torno de 8,5 foi sentido em várias partes de Portugal e da Europa ocidental. Embora o epicentro não fosse nas Beiras, a onda sísmica foi registada em zonas interiores devido à sua magnitude elevada.
Durante o século XIX e início do século XX, os registos documentais permitem identificar vários sismos sentidos em território continental, muitos dos quais com epicentros distantes mas percebidos também nas Beiras. O avanço gradual da instrumentação sísmica no final do século XIX e início do século XX começou a permitir a detecção mais precisa destes eventos, incluindo os de menor magnitude que passavam despercebidos no passado.
No século XX, durante décadas posteriores à instalação de redes de sismógrafos, começaram a surgir registos instrumentais mais fiáveis de eventos sísmicos próximos e distantes. Um dos grandes sismos nacionais deste período foi o de 28 de fevereiro de 1969, com magnitude 8,0 a 8,1 e epicentro a sudoeste do Cabo de São Vicente, no oceano. Este foi o maior terramoto registado em Portugal continental desde 1755 e foi sentido em grande parte do território, incluindo em zonas interiores e nas Beiras.
Apesar de estes grandes eventos com epicentros longínquos terem sido sentidos, a sismicidade directamente associada à zona das Beiras tende a ser de menor magnitude, mas frequente quando comparada com o passado remoto. Bases de dados sísmicos modernos mostram que, desde meados do século XX até aos dias de hoje, centenas de pequenos sismos com magnitudes principalmente entre 1 e 3 foram registados num raio de cerca de 150 km em torno de localidades como Celorico da Beira ou Moimenta da Beira. Estes abalos são muitas vezes detetados apenas pelos instrumentos, mas alguns atingem magnitudes superiores a 3 e são sentidos pela população.
Em meados de novembro de 2025, por exemplo, houve um sismo de magnitude 2,7 com epicentro perto de Coimbra, que foi sentido localmente, evidenciando que mesmo em áreas interiores de Portugal continental a actividade sísmica continua a ocorrer de forma relativamente regular, ainda que normalmente com pouca energia libertada.
Mais recentemente, na madrugada de 13 de dezembro de 2025, às 00h38, um sismo de magnitude 4,1 perto de Celorico da Beira foi sentido em vários municípios das regiões Norte e Centro, incluindo Viseu, Guarda, Aveiro e outros concelhos próximos, sem causar danos significativos, mas lembrando mais uma vez a presença sísmica nesta zona do país.
A história dos terramotos nas Beiras é, por isso, uma história de actividade constante mas moderada. A região não é palco frequente de grandes catástrofes sísmicas com origem local, mas faz parte de um território com actividade geológica dinâmica. Ao longo dos séculos, quer por relatos históricos quer através de instrumentos modernos, ficámos a saber que a terra sob os pés das populações beirãs tem tremido repetidamente, desde grandes sismos transfronteiriços nos séculos XVIII e XIX até aos pequenos abalos do presente. Conhecer este passado e presente sísmico ajuda a compreender melhor a realidade geológica da região e a preparar respostas mais informadas sempre que a terra volta a tremer.