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Tempo de Conhecer

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História completa dos terramotos em Portugal: todos os sismos significativos e os seus impactos até 1969

Portugal, ao longo da sua história, tem sido palco de acontecimentos sísmicos de grande intensidade, cuja memória se prolonga através de relatos antigos, marcas geológicas e documentação histórica. Os registos mais antigos apontam para um episódio por volta de 60 a.C., nas costas do sudoeste da Península Ibérica, especialmente no Golfo de Cádis e no Algarve. Embora a informação seja indirecta, os relatos de catálogos de tsunamis e crónicas sugerem que ondas significativas se abateram sobre as comunidades costeiras, deixando indícios de destruição e alterando o traçado das linhas costeiras, mesmo que não existam números fiáveis de vítimas. Mais tarde, em 382 d.C., um grande terramoto acompanhado de tsunami afectou novamente a mesma região do Atlântico sudoeste, reforçando a percepção histórica de vulnerabilidade do território face à actividade sísmica, ainda que sem registos precisos de mortos ou feridos. Durante a Idade Média, Lisboa e a costa ocidental sentiram abalos em 1344, descritos nas crónicas como choques violentos que provocaram destruições parciais de edifícios, testemunhando o medo e a apreensão das populações perante fenómenos naturais incontroláveis. Em 24 de agosto de 1356, o terramoto no Cabo de S. Vicente abalou fortemente o sul de Portugal e do sul de Espanha, com Sevilha a registar prejuízos significativos em edifícios e monumentos, enquanto em Portugal se verificaram destruições importantes em aglomerados costeiros e na cidade de Lisboa, demonstrando a constante vulnerabilidade da região sudoeste da Península Ibérica.

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A 26 de janeiro de 1531, Lisboa foi atingida por um terramoto de grande intensidade, sentido também em Santarém, Vila Franca de Xira, Almeirim e Azambuja. Este abalo destruiu cerca de duas mil habitações, arruinou igrejas, palácios e muralhas, provocou refluxos do Tejo e incêndios no porto da capital. Estima-se que tenham morrido aproximadamente mil pessoas, embora algumas fontes populares indiquem números superiores. O impacto deste desastre deixou uma marca profunda na cidade e motivou a aplicação de técnicas construtivas mais resistentes para prevenir catástrofes futuras.

O maior e mais conhecido terramoto da história portuguesa ocorreu a 1 de novembro de 1755, com epicentro no Atlântico, próximo do Banco de Gorringe. Todo o sudoeste peninsular foi afectado, e seguiu-se um tsunami que invadiu Lisboa e o Algarve com ondas de cinco a doze metros, chegando a atingir vinte a trinta metros em alguns pontos costeiros. A Baixa lisboeta foi praticamente destruída, incêndios generalizados consumiram grande parte da cidade e cerca de trinta mil pessoas perderam a vida. Este evento marcou um ponto de viragem na história europeia, impulsionando a reconstrução de Lisboa em estilo pombalino e incentivando avanços científicos em sismologia, tendo ainda profundo impacto no pensamento iluminista da época.

A 31 de março de 1761, um sismo de magnitude estimada em 8,5 Mw abalou o Atlântico Norte, afetando Lisboa e provocando danos em edifícios já fragilizados pelo terramoto de 1755. Seguiu-se um tsunami moderado, sentido em várias regiões atlânticas, incluindo partes da Europa e do Caribe. Apesar da intensidade do abalo, o número de vítimas em Portugal foi mínimo, registando-se apenas quatro mortes confirmadas, mas o pânico generalizado e a atenção científica reforçada deixaram marcas na sociedade.

A 2 de fevereiro de 1816, um sismo com epicentro entre os Açores e Lisboa, estimado em 8,5 Mw, abalou o país com grande intensidade, destruindo parcialmente edifícios em Lisboa e no Algarve. Pelo menos treze pessoas morreram e várias dezenas ficaram feridas. Este episódio evidenciou vulnerabilidades estruturais e contribuiu para estudos posteriores sobre a falha Açores-Gibraltar, reforçando a consciência da necessidade de prevenção sísmica em Portugal.

Em 11 de novembro de 1858, Setúbal e o Alentejo foram atingidos por um terramoto de cerca de 7,0 Mw, que arruinou grande parte das casas do bairro do Trónio e causou danos em diversas localidades. Entre quatro e seis pessoas perderam a vida e dezenas ficaram feridas ou desalojadas. Este evento, considerado o maior após 1755, despertou preocupações sobre a sismicidade do vale do Tejo e motivou estudos e melhorias nas técnicas construtivas da época.

A 23 de abril de 1909, o sismo de Benavente devastou o Vale Inferior do Tejo, destruindo aproximadamente 90% das casas em Samora Correia e Muge e danificando edifícios históricos em Benavente. Cerca de 42 pessoas morreram, 75 ficaram feridas e mais de treze mil ficaram desalojadas. Este foi o maior sismo em Portugal Continental do século XX até então, conduzindo a reformas em infraestruturas e ao reforço de edifícios, especialmente nas zonas rurais mais vulneráveis.

Finalmente, a 28 de fevereiro de 1969, um sismo de magnitude aproximada de 8,0 Mw teve epicentro no oceano Atlântico, cerca de 80 km a sudoeste de Sagres. Atingiu com intensidade máxima o Algarve e foi sentido em todo o país, destruindo parcialmente habitações tradicionais e provocando fissuras em edifícios, além de provocar pânico generalizado. Registaram-se treze mortos em Portugal e dezenas de feridos, com vítimas adicionais em Marrocos e Espanha devido a efeitos indiretos. Este evento reforçou a consciência sobre a necessidade de normas construtivas mais rigorosas e medidas de prevenção sísmica.

Ao longo dos séculos, Portugal aprendeu a conviver com a imprevisibilidade e a força da Terra. Desde os primeiros episódios registados até ao século XX, cada terramoto deixou marcas profundas na sociedade, na cultura e na ciência, moldando a forma como o país entende e se protege face aos fenómenos naturais. A memória destes acontecimentos é um testemunho da resiliência das populações e da contínua necessidade de adaptação perante a força da Terra.

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