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Tempo de Conhecer

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Harriet Jacobs e o sótão onde viveu escondida sete anos para ver os filhos

Em 1842, Harriet Jacobs conseguiu escapar da escravidão. Mas a sua liberdade não chegou de imediato. Durante sete longos anos, viveu escondida num sótão minúsculo, abafado e escuro, onde mal conseguia sentar-se ou mover-se. O motivo para tal sacrifício era um só: ver os filhos. Através de pequenas frestas na madeira, observava-os a brincar no pátio, sem que eles soubessem que a mãe estava tão perto — e tão prisioneira quanto antes.

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Nascida em 1813, no estado da Carolina do Norte, Harriet Jacobs foi escravizada desde criança. A sua juventude foi marcada por perseguições e assédio constante por parte do seu “dono”, que tentava forçá-la a submeter-se aos seus desejos. Recusou. E essa recusa teve um preço. Harriet decidiu, com enorme coragem, resistir não só pela sua própria dignidade, mas também para proteger os filhos que teve com outro homem. Quando percebeu que o seu opressor pretendia controlar também as crianças, fugiu.

Escondeu-se na casa da avó, uma mulher livre que mantinha uma modesta padaria. Foi lá que Harriet encontrou um pequeno sótão sobre o tecto, quase invisível do exterior, onde se refugiou. O espaço tinha pouco mais de um metro de altura e nenhuma ventilação. Ao longo de sete anos, enfrentou calor sufocante, frio intenso, doenças e uma solidão inimaginável. Não podia andar, falar ou sequer tossir sem arriscar ser descoberta. Mas conseguia ver os filhos. Era isso que a mantinha viva.

Só em 1849 conseguiu finalmente fugir para o Norte, com a ajuda de uma rede de abolicionistas. Tornou-se uma mulher livre e, anos mais tarde, escreveu a sua história. Em 1861, publicou Incidents in the Life of a Slave Girl, uma obra poderosa e sem precedentes, onde expôs ao mundo os horrores vividos pelas mulheres escravizadas: os abusos sexuais, o medo constante, a separação das famílias, a negação de qualquer intimidade ou segurança.

O livro de Harriet Jacobs foi uma das primeiras obras escritas por uma mulher afro-americana a relatar a escravidão a partir de uma perspectiva feminina. Durante muito tempo, a sua autoria foi posta em causa por críticos que se recusavam a acreditar que uma ex-escrava tivesse escrito algo tão eloquente. Mas era dela — e a sua voz atravessou gerações.

Harriet Jacobs não lutou apenas pela liberdade física. Lutou para que a verdade sobre a escravidão fosse conhecida. E teve a coragem de partilhar essa verdade, mesmo quando muitos queriam ignorá-la. A sua vida é um testemunho de resistência, sacrifício e amor de mãe. E a memória daquele sótão estreito onde viveu escondida durante sete anos continua a ecoar como símbolo da brutalidade da escravidão — mas também da força inquebrável de uma mulher que nunca deixou de lutar.

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