Diu: a batalha naval onde os canhões foram disparados com moedas
Em 1509, no auge da expansão portuguesa pelo Índico, deu-se uma das batalhas navais mais curiosas e decisivas da história marítima de Portugal: a Batalha de Diu. Este confronto épico, que opôs uma frota portuguesa a uma aliança muçulmana composta por forças do Egito mameluco, do sultanato de Guzerate, de Calecute e até corsários otomanos, foi fundamental para garantir o domínio luso sobre o comércio do oceano Índico. Mas o que tornou esta batalha ainda mais lendária foi um detalhe pouco conhecido: em certo momento, os canhões portugueses foram carregados com moedas.

A batalha ocorreu ao largo da cidade portuária de Diu, na costa ocidental da Índia, numa época em que Portugal, sob o comando de Afonso de Albuquerque e de Francisco de Almeida, procurava consolidar a sua presença no Oriente. O vice-rei Francisco de Almeida liderava a frota portuguesa, motivado não apenas pela defesa dos interesses do reino, mas também por um desejo pessoal de vingança, pois o seu filho D. Lourenço de Almeida tinha sido morto meses antes em combate contra os mesmos inimigos.
O confronto foi brutal e prolongado. Durante horas, as naus portuguesas, fortemente armadas, trocaram salvas de artilharia com os navios adversários. Os portugueses, mais disciplinados e com melhor tecnologia naval, tinham a vantagem, mas, à medida que a batalha avançava, começaram a surgir problemas logísticos. As reservas de balas de canhão começaram a escassear. Num momento de necessidade desesperada, os artilheiros improvisaram: carregaram os canhões com moedas de metal – sobretudo cruzados de prata – para manter a cadência de fogo.
Esta solução insólita mostrou-se eficaz. As moedas, embora não tão pesadas como as balas de ferro, causavam estragos consideráveis ao serem disparadas em massa contra as embarcações inimigas e os seus tripulantes. Além disso, provocavam cortes e ferimentos terríveis, espalhando o pânico e desmoralizando as forças oponentes. Era uma mistura de pragmatismo e desespero que acabou por contribuir para a vitória esmagadora dos portugueses.
A Batalha de Diu consolidou o controlo luso sobre as principais rotas comerciais do oceano Índico e marcou o início de mais de um século de supremacia portuguesa na região. Foi também uma demonstração impressionante da capacidade de adaptação dos portugueses em situação de crise: não hesitaram em sacrificar a sua própria riqueza material para garantir a vitória.
O episódio das moedas disparadas como projéteis ficou como um símbolo da determinação implacável de uma geração de navegadores e guerreiros que, enfrentando distâncias inimagináveis, culturas desconhecidas e inimigos poderosos, fizeram de Portugal uma potência mundial – e, em certos momentos decisivos, mostraram que a engenhosidade podia ser tão letal quanto a força.