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D. Maria II: a rainha que reinou sem ser coroada

A história de Portugal está cheia de figuras poderosas e marcantes, mas poucas se comparam à de D. Maria II de Portugal – a rainha que reinou sem nunca ter sido coroada. O seu percurso, desde a infância atribulada até ao trono de um país em convulsão, é um retrato vívido das tensões entre monarquia e liberalismo no século XIX. Apesar de nunca ter passado pela cerimónia tradicional da coroação, D. Maria II governou de facto, com coragem, firmeza e notável sentido político.

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Filha de D. Pedro IV de Portugal (também imperador do Brasil como D. Pedro I), D. Maria nasceu em 1819 no Rio de Janeiro, durante o exílio da corte portuguesa no Brasil. A sua infância foi marcada por conflitos familiares e políticos: o pai abdicou do trono português em seu nome, ainda ela era uma criança, com a condição de que Portugal aceitasse uma constituição liberal. Mas o trono foi usurpado pelo seu tio, D. Miguel, que instaurou um regime absolutista e se autoproclamou rei.

Começava assim uma guerra civil. Entre 1832 e 1834, os liberais e os absolutistas enfrentaram-se nas chamadas Guerras Liberais. D. Maria, ainda menina, tornou-se símbolo de uma causa maior: a luta pela liberdade constitucional contra o absolutismo restaurado. Com apenas treze anos, desembarcou em Lisboa em 1834 após a vitória liberal, sendo aclamada rainha por aclamação popular e não por coroação tradicional – cerimónia que, no seu caso, nunca viria a realizar-se.

A razão para a ausência de coroação foi simbólica e profundamente política. A monarquia portuguesa entrava num novo tempo: constitucional, liberal e moderna. As cerimónias de coroação, com os seus rituais medievais de unção sagrada, pertenciam a uma época em que o rei era visto como escolhido por Deus. A nova ordem liberal queria afastar-se dessa ideia. A aclamação pública, feita em nome da vontade nacional e da constituição, substituiu a coroação como símbolo da legitimidade. Maria II foi, assim, a primeira soberana portuguesa a governar sem o rito sagrado da coroação, mas com o mandato político e civil de um novo regime.

Apesar da juventude e da ausência de experiência, D. Maria II demonstrou desde cedo uma capacidade notável para lidar com as tensões políticas. O seu reinado foi tudo menos tranquilo: enfrentou várias revoltas, instabilidade parlamentar, tentativas de golpe e crises económicas. Casou com D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, que se tornaria rei-consorte como D. Fernando II, e com quem teve onze filhos, assegurando a continuidade da dinastia de Bragança.

A rainha era conhecida pelo seu temperamento firme e pelo seu profundo sentido de dever. Não era uma figura decorativa: participava ativamente na vida política, preocupava-se com a administração do Estado e defendia o sistema constitucional, mesmo contra sectores da nobreza ou da Igreja que desejavam um regresso ao absolutismo.

A sua morte, em 1853, aos 34 anos, foi trágica. Morreu de complicações no parto do seu décimo primeiro filho, o que acentuou ainda mais a ideia de uma mulher sacrificada pelo dever e pelo trono. Apesar de ter reinado durante quase duas décadas, foi durante muito tempo pouco lembrada, talvez por não ter a aura mística de uma coroação ou de uma lenda sebastianista, como outros monarcas portugueses. Mas com o tempo, a sua figura tem vindo a ser revalorizada, sobretudo como símbolo de uma nova era política.

D. Maria II foi, sem dúvida, a rainha que reinou sem ser coroada – mas com mais legitimidade do que muitos que o foram. Foi a monarca de um tempo de transição, onde o poder passava das mãos de uma elite absolutista para um novo conceito de soberania assente na vontade da nação. Uma mulher determinada, moderna para a sua época, que assumiu o peso da coroa sem precisar da sua cerimónia. E por isso mesmo, talvez, seja hoje mais relevante do que nunca.

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