Brainrot italiano: como os memes gerados por inteligência artificial estão a transformar a cultura digital no TikTok e redes sociais
No início de 2025 surgiu nas redes sociais um fenómeno estranho e fascinante que ficou conhecido como Brainrot italiano — uma onda de memes gerados por inteligência artificial que rapidamente se espalhou por plataformas como o TikTok, Instagram e YouTube Shorts, conquistando sobretudo utilizadores mais jovens e transformando-se num dos fenómenos culturais digitais mais marcantes do ano.

O que torna o Brainrot italiano tão único é a sua absurda mistura de imagens e sons. Criaturas bizarras que não existiriam na natureza — um tubarão com ténis Nike, um crocodilo combinado com um avião militar ou um macaco‑bananeira sem braços — são geradas por ferramentas de inteligência artificial e baptizadas com nomes que soam pseudo‑italianos como Tralalero Tralala ou Brr Brr Patapim. A tecnologia permite que qualquer pessoa crie rapidamente estas criações surreais, combinando imagens e narrações sintetizadas em “italiano” que muitas vezes não fazem sentido, mas que conseguem prender a atenção pela estranheza e humor involuntário.
A própria ideia de “brainrot”, que em inglês pode ser traduzida literalmente por “podridão cerebral”, foi já apontada como Palavra do Ano devido ao uso crescente nas pesquisas online. Neste contexto digital, o termo passou a descrever conteúdos que não apresentam lógica clara, mas que se tornam irresistíveis pela repetição, pelo absurdo ou pela estética caótica, levando os utilizadores a ficar imersos em vídeos e imagens durante longos períodos.
A viralidade deste fenómeno deu‑lhe um alcance global em poucos meses. Criadores em países tão distantes como o Japão, os Estados Unidos ou o Brasil começaram a partilhar os seus próprios memes de Brainrot, adaptando personagens e criando narrativas cada vez mais elaboradas. Alguns vídeos chegaram a somar centenas de milhões de visualizações, motivando até a criação de paródias, músicas e formas alternativas de conteúdo inspiradas nas criaturas surreais.
Mas nem tudo é simplesmente humor inocente: à medida que o fenómeno se espalhava, surgiram críticas e alertas sobre os potenciais efeitos do consumo contínuo de conteúdo totalmente desprovido de sentido, especialmente entre crianças e adolescentes. Alguns especialistas em desenvolvimento cognitivo alertaram que passar horas a consumir vídeos que misturam imagens caóticas com narrações sem lógica pode ter impactos negativos na concentração e no bem‑estar emocional de quem está em fases sensíveis de desenvolvimento.
O Brainrot italiano é também um exemplo claro de como a inteligência artificial está a transformar a criação cultural online. Ferramentas de geração de imagens e áudio democratizaram a produção de conteúdos visuais e sonoros, eliminando a barreira técnica que antes limitava a criação de memes mais elaborados. Esta democratização permite que qualquer pessoa com um smartphone e acesso a ferramentas de IA possa inventar personagens e histórias que se espalham com surpreendente rapidez pela internet.
Este fenómeno, aparentemente gratuito e caótico, diz muito sobre a cultura digital contemporânea: numa era em que o algoritmo recompensa o inesperado e o surreal, conteúdos avantajados por essa lógica tornam‑se símbolos de uma nova estética de humor e partilha. Mesmo que muitos considerem estes memes simplesmente “absurdos” ou “sem sentido”, o Brainrot italiano acabou por revelar como as comunidades online reinterpretam a tecnologia e a criatividade, transformando‑as em algo que, apesar de estranho, reflecte as obsessões e o espírito colaborativo da cultura de internet do século XXI.
Em suma, o Brainrot italiano pode parecer à primeira vista uma mera série de imagens estranhas e nomes engraçados, mas trata‑se de um fenómeno que encapsula a intersecção entre tecnologia, humor e cultura digital, e que nos dá uma visão fascinante de como a inteligência artificial está a moldar — e a confundir — a forma como consumimos e partilhamos cultura nas redes sociais.