A verdadeira história da Cosa Nostra e das cinco famílias da máfia de Nova Iorque
A designação Cosa Nostra — “a nossa coisa”, em italiano — surgiu como sinónimo da máfia ítalo-americana, uma rede criminosa que ganhou forma ao longo do século XX nos Estados Unidos, especialmente em cidades como Nova Iorque. As suas raízes estão em tradições sicilianas e encontraram solo fértil na América através da imigração e das desigualdades sociais. Sob o manto da clandestinidade, essa organização canalizou violência, medo e astúcia para controlar atividades ilícitas como o jogo, o agiotismo, infiltrações em sindicatos e contratos públicos.

O momento decisivo para a consolidação da máfia novaiorquina ocorreu durante a Lei Seca, quando o comércio ilegal de álcool proporcionou lucros colossais. Por volta de 1931, conflitos sangrentos entre gangues levaram o mafioso Salvatore Maranzano a reorganizar o panorama do crime em Nova Iorque, criando cinco “famílias” diferentes sob sua autoridade e adotando o título de capo di tutti capi — chefe de todos os chefes.
Esse sistema, no entanto, não durou muito sob aquela forma autoritária. Maranzano foi assassinado meses depois, e os seus rivais instituíram um órgão de comando colegial, a Comissão, onde as cinco famílias teriam representação igualitária. A estrutura rígida das famílias prevaleceu: cada uma com um chefe (boss), um segundo em comando (underboss), um conselheiro (consigliere), caporegimes e “soldados”. A lealdade era jurada sob o código da omertà, o silêncio absoluto — quebrar esse juramento significava a morte.
As cinco famílias de Nova Iorque tornaram-se lendas do crime organizado. A família Gambino, talvez a mais famosa, teve figuras como Carlo Gambino e John Gotti, que exibiu poder e arrogância até ser preso em 1992. A Genovese, fundada por Lucky Luciano, ganhou fama por operar nas sombras — disciplinada, discreta e extremamente lucrativa. O líder Vincent “The Chin” Gigante fingiu-se de louco durante anos para evitar processos judiciais. A Lucchese concentrou-se particularmente em controlar sindicatos do trabalho em Nova Iorque e ficou associada a roubos emblemáticos, como o assalto da Lufthansa, que inspirou partes do filme Goodfellas. A Bonanno, dirigida originalmente por Joe Bonanno, caiu em desgraça quando o agente infiltrado Donnie Brasco revelou segredos e abalou a confiança interna. A Colombo, a mais jovem das cinco, enfrentou guerras internas e tentativas de assassinato, sobretudo contra o próprio chefe Joe Colombo em 1971.
Ao longo das décadas, esforços implacáveis das autoridades — especialmente através da aplicação da lei RICO (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act) — desmantelaram grande parte da hierarquia mafiosa nos anos 90. Ainda assim, a influência da Cosa Nostra não desapareceu por completo. Hoje em dia opera num nível mais discreto e diversificado, voltando-se para crimes financeiros, fraudes e corrupção, sem renunciar à estrutura que Maranzano impôs quase cem anos atrás. Segundo o National Institute of Justice, permanece entre as facções criminosas com maior capacidade de controlar, coagir e corromper nos Estados Unidos.