A morte de D. João II em 1495 e o enigma do rei que temeu ser envenenado
A morte de D. João II, em 1495, continua envolta num mistério que o tempo nunca dissipou completamente. O rei, conhecido como o Príncipe Perfeito, foi uma das figuras mais marcantes e enigmáticas da história de Portugal. Inteligente, austero e implacável, moldou o país com mão firme e consolidou o poder régio como nenhum outro monarca da dinastia de Avis. Mas o homem que colocou os reis e nobres de joelhos diante da coroa terminou os seus dias de forma súbita e cercado de suspeitas, num cenário que misturava doença, solidão e um temor crescente de envenenamento.

D. João II subiu ao trono em 1481, decidido a quebrar o domínio dos grandes senhores que ameaçavam a autoridade real. Herdara um reino próspero, mas dividido por ambições feudais. Rapidamente impôs o seu estilo: centralizador, disciplinador e implacável. Mandou executar D. Fernando, duque de Bragança, acusado de traição, e esteve diretamente envolvido na morte do duque de Viseu, seu primo e cunhado, a quem esfaqueou com as próprias mãos após descobrir uma conspiração. A mensagem era clara — em Portugal só existia um poder legítimo, o do rei.
Mas o Príncipe Perfeito não foi apenas um monarca autoritário. Foi também um visionário. Sob o seu reinado, Portugal preparou o caminho para a expansão ultramarina que mudaria o mundo. Foi ele quem enviou Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva em busca do mítico Preste João, e quem apoiou o projeto que levaria Bartolomeu Dias a dobrar o Cabo da Boa Esperança. No final do século XV, o pequeno reino que governava já apontava para o desconhecido, e a sua visão estratégica era admirada em toda a Europa.
Contudo, o poder absoluto que conquistou trouxe-lhe inimigos poderosos, tanto dentro como fora do reino. As suas medidas contra a alta nobreza criaram ressentimentos profundos. Muitos dos que tinham perdido privilégios sonhavam com vingança. Nos últimos anos de vida, D. João II tornara-se desconfiado e silencioso. Falava pouco, comia ainda menos, e evitava até provar alimentos que não fossem servidos por criados de confiança. A morte do seu único filho legítimo, o príncipe D. Afonso, num acidente em 1491, mergulhou-o numa tristeza sombria e alimentou rumores de intrigas e maldições.
O rei nunca se recuperou dessa perda. Retirou-se frequentemente para o sul, para Alvor e para as vilas do Algarve, afastado da corte e dos olhos dos que suspeitava quererem a sua morte. Foi ali, em Alvor, em 1495, que o seu corpo começou a ceder. A doença foi súbita e misteriosa. As crónicas descrevem febres, dores intensas e um declínio rápido. Uns disseram que fora a sífilis, outros que a melancolia o consumira, e muitos acreditaram que o rei fora envenenado — talvez por ordem de inimigos da corte de Castela, talvez por vingança interna.
D. João II morreu a 25 de outubro de 1495, com apenas quarenta anos, sem herdeiros diretos e sem ter designado publicamente o sucessor até aos últimos dias. Escolheu, por fim, o seu primo D. Manuel, duque de Beja, que subiu ao trono como D. Manuel I. Foi uma escolha pragmática, mas carregada de ironia: D. Manuel era irmão do duque de Viseu, o mesmo que D. João II matara anos antes.
A morte do Príncipe Perfeito deixou Portugal num limiar entre o medo e a esperança. O país que ele deixava estava unido e forte, mas também ferido pela sua dureza. As suspeitas de envenenamento nunca foram provadas, e o mistério permanece parte do seu legado. D. João II foi, talvez, o mais moderno dos reis medievais portugueses — um homem de poder absoluto, mas também de visão global, que compreendeu antes de todos que o futuro do reino estava para além do mar.
O seu fim solitário em Alvor, envolto em silêncio e desconfiança, parece um símbolo do preço da grandeza. D. João II morreu como viveu: cercado por intrigas, temido por uns, respeitado por todos, e consciente de que a glória e o perigo caminham sempre lado a lado.