A maratona mais louca da história: veneno, maçãs podres e cães vadios nos Jogos Olímpicos de 1904
Os Jogos Olímpicos de 1904, realizados em St. Louis, nos Estados Unidos, ficaram marcados por inúmeros episódios insólitos e absurdos, mas nenhum evento foi tão caótico, surreal e quase cómico como a maratona masculina. À primeira vista, tratar-se-ia apenas de uma corrida de resistência entre os melhores atletas do mundo. No entanto, o que aconteceu naquele dia de Verão foi tudo menos normal. Foi uma mistura de má organização, decisões irresponsáveis, experiências científicas perigosas e situações que mais parecem saídas de uma sátira.

O percurso da maratona tinha cerca de 40 quilómetros e atravessava estradas de terra batida, com poeira levantada pelos carros oficiais que acompanhavam os atletas. Não havia quase postos de água — por decisão deliberada, para se “estudar os efeitos da desidratação”. O calor era sufocante e a humidade insuportável. Era o cenário perfeito para o desastre, e foi isso mesmo que aconteceu.
Um dos corredores mais promissores, Thomas Hicks, foi sujeito a uma experiência médica insólita. Os seus treinadores decidiram “ajudá-lo” com um cocktail que incluía clara de ovo, brandy e… estricnina, uma substância tóxica usada em pequenas doses como estimulante. À medida que Hicks se arrastava pela estrada, começou a delirar, a alucinar, a perder contacto com a realidade. Ainda assim, com os seus treinadores praticamente a carregá-lo e a alimentá-lo com mais doses de veneno, acabou por cortar a meta em primeiro lugar. Só mais tarde se percebeu que quase morreu — e que a sua vitória foi uma combinação de teimosia, abuso químico e puro acaso.
Outro corredor, o cubano Félix Carvajal, era uma figura carismática. Chegou aos Jogos sem dinheiro, viajou até St. Louis a pedir boleia e teve de correr com roupas que ele próprio cortou para parecerem calções. Durante a maratona, parou para cumprimentar espectadores e até decidiu entrar num pomar para comer maçãs caídas. O problema é que estavam podres. Começou a vomitar, teve cãibras e chegou mesmo a deitar-se para descansar. Ainda assim, apesar de todos estes contratempos, terminou a prova em quarto lugar. A sua boa disposição e resistência impressionaram todos, mesmo num cenário tão caótico.
Não muito longe, outro atleta estava a sofrer os efeitos da estrada poeirenta. William Garcia, um dos poucos americanos a tentar completar o percurso, caiu inconsciente depois de inalar tanto pó levantado pelos carros que acabou por rasgar o revestimento do estômago. Foi levado para o hospital e os médicos disseram que, se tivesse demorado mais alguns minutos a receber tratamento, teria morrido.
E como se tudo isto não fosse suficiente, há a história de Fred Lorz, que parecia ter vencido a corrida quando cruzou a linha de meta. Foi saudado como herói até se descobrir que, depois de correr os primeiros quilómetros, tinha apanhado boleia num carro durante grande parte do percurso. Quando o veículo avariou, decidiu continuar a pé e acabou por chegar ao estádio em primeiro. A sua “vitória” foi anulada e Lorz foi desqualificado.
E depois há talvez o episódio mais bizarro de todos: um corredor foi literalmente perseguido por cães vadios, teve de fugir para o mato e perdeu minutos preciosos. Mesmo assim, voltou à estrada e continuou a correr como se nada fosse.
O vencedor oficial acabou por ser Thomas Hicks, aquele que alucinava com veneno no sangue. A sua imagem, a ser ajudado pelos treinadores, quase sem conseguir andar, tornou-se um símbolo trágico do que foi esta maratona: um teste à resistência humana, mas também um retrato grotesco da irresponsabilidade e do amadorismo de uma época em que a ciência do desporto ainda era pouco mais do que um palpite.
Hoje, olhando para trás, a maratona dos Jogos Olímpicos de 1904 parece uma fábula absurda, cheia de personagens excêntricas e reviravoltas surreais. Mas aconteceu mesmo. E é, sem dúvida, uma das provas mais caóticas e inesquecíveis da história do desporto.