Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Tempo de Conhecer

Tempo de Conhecer

A ilha onde nasciam gémeos de olhos negros

No Golfo da Guiné, ao largo da costa ocidental africana, existe uma pequena ilha chamada Príncipe – coberta de floresta densa, envolta em névoas matinais e quase esquecida pela história. Mas durante décadas, algo de extraordinário e inquietante foi sendo registado por missionários, médicos coloniais e estudiosos discretos: um número anormal de nascimentos múltiplos. E mais estranho ainda – uma alta percentagem desses gémeos nascia com olhos completamente negros. Sem íris visível, sem reflexo colorido. Apenas um negro profundo, opaco, quase sobrenatural.

DSC_0304.jpg

As primeiras anotações datam do início do século XX, quando enfermeiras portuguesas destacadas para a ilha reportaram, com algum nervosismo, "partos duplos e triplos com padrões invulgares". Os registos médicos, ainda hoje arquivados em Lisboa, falam de bebés saudáveis mas com olhar fixo e ausente, incapazes de seguir movimentos com os olhos nos primeiros meses. Em alguns casos, os próprios pais recusavam amamentar as crianças, convencidos de que "traziam a noite nos olhos".

Durante os anos 50, uma equipa de antropólogos tentou investigar o fenómeno. Estudaram a genética das famílias, os padrões alimentares, até a composição mineral dos solos da ilha. Nada explicava a frequência de gémeos. E menos ainda a coloração dos olhos. Alguns gémeos cresciam normalmente, sem qualquer diferença cognitiva. Mas outros apresentavam comportamentos tão peculiares que foram enviados para clínicas psiquiátricas em São Tomé ou mesmo para instituições na metrópole. Desenhos obsessivos de formas espirais, uma aversão intensa à luz solar, e um silêncio obstinado que durava anos eram características recorrentes em certos grupos.

Na cultura local, tudo isto já tinha nome: "filhos da noite grande". Os mais velhos contavam histórias em crioulo sobre um espírito antigo, enterrado na floresta, que às vezes "chamava duas almas para nascerem no lugar de uma". Ninguém ousava dormir perto das clareiras da encosta norte da ilha, onde se dizia que a terra brilhava em certas madrugadas sem lua.

Curiosamente, as estatísticas oficiais nunca foram publicadas. Alguns investigadores sugerem que o fenómeno foi deliberadamente abafado pelas autoridades coloniais e, mais tarde, pelos governos locais, por receio de atrair um turismo sensacionalista ou alimentar superstições perigosas. Há relatos não confirmados de que a Universidade de Coimbra conduziu testes com amostras de ADN recolhidas clandestinamente na década de 1980. O resultado? Anomalias mitocondriais "impossíveis de replicar" noutras populações humanas conhecidas. O relatório foi arquivado.

Hoje, o fenómeno parece ter diminuído – ou apenas deixou de ser documentado. Muitos dos gémeos cresceram, partiram da ilha e desapareceram do mapa. Alguns vivem discretamente em cidades africanas ou europeias. Outros – diz-se – regressam a Príncipe de tempos a tempos, sempre aos pares, sempre em silêncio, para visitar uma colina específica, onde as árvores crescem em espiral e não há som de pássaros.

A ilha, bela e pacífica à primeira vista, guarda um segredo antigo. E em certos dias, quando o céu se torna demasiado escuro para a hora do dia, ainda há quem diga que vê crianças de olhos negros a observar, quietas, da orla da floresta. Como se nunca tivessem realmente partido.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D