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Tempo de Conhecer

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A Grande Praga de Londres de 1665

No verão abafado de 1665, Londres tornou-se um cenário de terror. A cidade, com os seus becos apertados, esgotos abertos e amontoados de gente pobre, foi tomada por um inimigo invisível e implacável: a Grande Praga. Embora o termo "peste" já carregasse consigo memórias negras da Idade Média, o que Londres enfrentou naquele ano ultrapassou todas as expectativas.

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Os primeiros casos surgiram discretamente em abril, no bairro de St. Giles. Um alfaiate morreu subitamente, seguido pela sua família. A notícia espalhou-se devagar, abafada pelas autoridades que temiam o pânico. Mas o silêncio foi quebrado pelo número crescente de campainhas mortuárias e pelas carroças que passavam com os gritos lúgubres de "Bring out your dead!". As igrejas começaram a enterrar corpos em valas comuns e a cidade, aos poucos, caiu num estado de desespero puro.

Os médicos da peste, com os seus trajes sinistros – túnicas escuras, chapéus largos e aquelas famosas máscaras com bico, recheadas de ervas aromáticas – tornaram-se figuras fantasmagóricas nas ruas desertas. Não havia cura. As casas com infetados eram seladas a pregos pelas autoridades, com uma cruz vermelha pintada na porta e a inscrição: "Deus tenha piedade de nós". Lá dentro, famílias inteiras morriam lentamente, isoladas, sem pão, sem água, sem consolo.

A aristocracia fugiu. O rei Carlos II e a corte refugiaram-se no campo, enquanto os pobres ficavam, presos ao cheiro a cadáver e ao medo crescente. Até os cães e gatos foram exterminados em massa, por se pensar que espalhavam a doença – quando, ironicamente, eram os únicos a caçar os ratos que carregavam as pulgas infetadas com a bactéria Yersinia pestis.

Durante meses, os sinos das igrejas dobraram sem parar. As cidades vizinhas recusavam-se a aceitar refugiados londrinos. O comércio colapsou. A fome juntou-se à peste. Os vivos deixaram de enterrar os mortos, e relatos falam de corpos deixados ao relento, envoltos em lençóis sujos ou simplesmente nus, esperando que alguém os levasse.

Ao todo, cerca de 100 mil pessoas morreram – quase um quarto da população de Londres. Mas o número real pode ter sido ainda maior, já que muitos casos não foram oficialmente registados. A praga finalmente começou a desaparecer com a chegada do inverno de 1665, que travou a reprodução das pulgas. No entanto, foi um outro desastre que fechou este ciclo sombrio: o Grande Incêndio de Londres, no ano seguinte, destruiu boa parte da cidade medieval. Ironicamente, esse incêndio terá ajudado a erradicar os últimos focos da doença, ao queimar bairros inteiros onde a peste ainda espreitava.

Hoje, a Praga de Londres de 1665 é lembrada não apenas pela escala da tragédia, mas pela forma crua e humana como expôs o medo, a solidão e a fragilidade de uma cidade diante do invisível. Foi um teste de resistência para o corpo e para o espírito, uma época em que viver era um acto de desafio e onde cada amanhecer trazia a dúvida: quem será o próximo?

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