A família Dallot: de artistas itinerantes do século XIX a Ruben Amorim e Diogo Dalot no Manchester United
A história da família Dallot começa numa Europa em mudança, no fim do século XIX, com três irmãos nascidos em França: Carlos, José e Júlia. Estes irmãos abraçaram o mundo do espetáculo muito antes de os holofotes saltarem para os grandes palcos fixos das capitais; o seu palco era a rua, a feira, a praça.

Instalados em Portugal, depois de digressões por Espanha e Inglaterra, os Irmãos Dallot fundaram uma companhia de teatro itinerante que atravessou o país de norte a sul. O repertório era vasto: números acrobáticos e ginásticos, palhaços, comédias populares, teatro mecânico, espetáculos multifacetados que combinavam riso, desafio físico e a leveza de uma arte acessível a todos.
O seu grande triunfo foi feito nessa junção entre espetáculo e familiaridade. Num tempo em que o entretenimento popular ainda se confundia com feira, os Dallot criaram quase um fenómeno cultural: a sua companhia tornou-se tão influente que autores da época como Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão referiram-nos nas “Farpas”, e Eduardo Noronha chamou ao teatro Dallot “o mais popular, o mais aplaudido, o que atingiu maior longevidade”.
Uma imagem singular da época mostra o humor e a irreverência do grupo: em 1879, uma caricatura de Bordalo Pinheiro aproveita o sucesso da opereta “O Processo Rasga”, encenada pelos Dallot como paródia da zarzuela espanhola “O Processo do Cancan”. Na caricatura, Carlos Dallot ergue-se no topo das escadas e proclama, em sotaque francês bem marcado: “Vai principiarrr, senhores, vai principiarrr…”; à direita, observa-se José Dallot da tribuna, pronto para comandar o público que se aproxima.
Mas mais do que o espetáculo, impressiona a continuidade e o impacto que esta família teve. O teatro itinerante já não era o centro do entretenimento popular — o mundo mudava, os tempos avançavam — e, ainda assim, os Dallot foram semeando talento e ligações familiares ao mundo das artes. Radicados em Portugal, acabaram por se ligar a outras dinastias teatrais, da qual saíram nomes como Palmira Bastos, Eunice Muñoz ou Camilo de Oliveira.
Um dos aspetos mais interessantes é como essa herança se prolonga até ao século XXI de forma inesperada. Dois primos, ambos trinetos de Carlos Dallot, despontaram no universo do futebol e do grande espetáculo global: Ruben Amorim, treinador, e Diogo Dalot, jogador, chegaram ao Manchester United — um clube que, hoje em dia, representa talvez o ápice do espetáculo desportivo mundial.
Há algo profundamente comovente nesta transição: de feiras e praças a estádios e televisões; de espetáculos ambulantes a grandes palcos internacionais; de acrobacias e teatro mecânico ao futebol-show. A família Dallot personifica essa transformação — não apenas enquanto artistas, mas enquanto vectores de mudança cultural e social. A longevidade do seu impacto, a forma como adaptaram o espetáculo à mobilidade e à modernidade, e como se mantiveram presentes através de gerações, transforma-os num caso exemplar de como o entretenimento popular pode evoluir sem perder as suas raízes.
Para quem se interessa por genealogia, por história das artes, ou simplesmente pela forma como famílias de criadores moldam o seu tempo, o legado dos Dallot serve de recordação da importância de saber reinventar-se. A memória dos seus espetáculos ambulantes pode ter-se desvanecido em parte, mas o seu espírito permanece — na alegria do público, no riso e no aplauso que ainda ressoam.