Luís Filipe Vieira, ex-presidente do Sport Lisboa e Benfica, afirmou que João Noronha Lopes, candidato à presidência do clube, pagou em dinheiro a Óscar Cardozo para obter o seu apoio.
Esta acusação surge no contexto das eleições internas do Benfica, marcadas para outubro de 2025, e reflete a tensão existente entre as diferentes candidaturas. Vieira, que liderou o clube durante vários anos, tem criticado abertamente a candidatura de Noronha Lopes, considerando-a uma ameaça à sua influência no clube.
Por outro lado, Noronha Lopes tem procurado alavancar o apoio de figuras emblemáticas do clube, como Cardozo, para fortalecer a sua posição. O apoio de Cardozo é visto como significativo, dado o seu estatuto junto dos adeptos benfiquistas.
A afirmação de Vieira sobre o pagamento a Cardozo reflete a complexidade e a emoção que envolvem as eleições no Benfica, um clube com uma história rica e uma base de adeptos apaixonada. As próximas semanas serão decisivas para o futuro do clube.
O Marquês de Pombal, nascido Sebastião José de Carvalho e Melo, desempenhou um papel absolutamente central na reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755. Até esse momento, era um ministro influente, mas não o mais poderoso. O desastre, que destruiu a capital, ofereceu-lhe uma oportunidade única de afirmar a sua liderança e transformar Portugal. A sua resposta firme, prática e enérgica marcou não só a reconstrução da cidade, mas também o futuro político e cultural do país.
Logo após o sismo e o tsunami que devastaram Lisboa, o rei D. José I ficou em choque e, como muitos sobreviventes, instalou-se em tendas na zona de Belém, temendo regressar a edifícios de pedra. Foi nesse contexto de incerteza que Carvalho e Melo se destacou, assumindo o controlo da situação. Uma frase que lhe é atribuída tornou-se célebre e resume o seu espírito pragmático: “Enterrem-se os mortos e cuidem-se dos vivos.” Essa determinação contrastava com o clima de pânico e de desespero generalizado, dando à população um sinal claro de que alguém estava disposto a agir.
A primeira medida foi manter a ordem. O terramoto tinha deixado Lisboa sem governo funcional, com milhares de cadáveres, incêndios incontroláveis e o risco iminente de saque. O futuro Marquês de Pombal mobilizou o exército para controlar a cidade, garantir o abastecimento de alimentos e castigar quem se aproveitasse da tragédia. Criou também medidas de saúde pública, determinando o rápido enterramento ou queima dos corpos para evitar epidemias. Estas ações imediatas foram decisivas para impedir que a catástrofe natural se transformasse numa catástrofe ainda maior de fome e doença.
Depois de estabilizar a situação, Carvalho e Melo voltou-se para a reconstrução. Com uma visão que ia além da simples recuperação, quis criar uma Lisboa moderna, funcional e resistente a futuros desastres. Encomendou aos engenheiros militares Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel a elaboração de um plano para a nova cidade. Nasceu assim a Baixa Pombalina, um projeto inovador para a época. Em vez das ruas estreitas e labirínticas da Lisboa medieval, surgiram avenidas largas e ortogonais, praças amplas como o Terreiro do Paço e quarteirões geométricos, que transmitiam ordem e racionalidade.
Um dos aspetos mais revolucionários foi a introdução de técnicas construtivas resistentes a sismos. Os novos edifícios foram projetados com a chamada “gaiola pombalina”, uma estrutura interna de madeira em grelha, flexível e capaz de absorver vibrações. Para testar a eficácia desse sistema, há relatos de que soldados marcharam dentro das construções inacabadas, simulando abalos. Este cuidado fez de Lisboa uma das primeiras cidades do mundo a aplicar critérios de engenharia sísmica, uma verdadeira inovação para o século XVIII.
A reconstrução da cidade também foi um reflexo do poder político crescente de Carvalho e Melo. As ordens eram dadas de cima para baixo, e quem resistisse era ignorado ou afastado. Muitos aristocratas, cujos palácios tinham sido destruídos, protestaram contra o plano de quarteirões uniformes que os obrigava a viver em edifícios semelhantes aos comerciantes e burgueses. Mas o futuro Marquês de Pombal manteve-se firme: a nova Lisboa não seria marcada pelos privilégios da nobreza, mas pela ordem e pela funcionalidade.
O impacto das suas medidas foi profundo e ultrapassou a arquitetura. A forma como enfrentou a tragédia deu-lhe enorme prestígio junto do rei, permitindo consolidar-se como primeiro-ministro de facto e implementar um vasto programa de reformas políticas, económicas e sociais. O terramoto de 1755, nesse sentido, foi também o ponto de viragem que transformou Carvalho e Melo no Marquês de Pombal, uma das figuras mais marcantes da história portuguesa.
Lisboa renasceu mais moderna, mais segura e mais racional. Mas a reconstrução não foi apenas uma obra material, foi também um símbolo do poder centralizado e autoritário que caracterizou o governo pombalino. A cidade tornou-se uma vitrina do Iluminismo aplicado ao urbanismo, enquanto o próprio Pombal se afirmava como o homem que soubera transformar a maior tragédia portuguesa numa oportunidade para reformar o país.
O papel do Marquês de Pombal na reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755 é, por isso, duplo: por um lado, a sua ação imediata evitou o colapso total; por outro, o seu plano urbanístico e político projetou uma nova cidade e um novo Portugal. A sua marca continua visível até hoje, nas ruas retas e nas praças amplas da Baixa, que guardam a memória de como um desastre natural deu origem a uma das mais notáveis reconstruções da história europeia.
O terramoto de 1 de novembro de 1755, que ocorreu em pleno Dia de Todos os Santos, marcou uma rutura profunda na história de Lisboa e de Portugal. Foi um dos maiores desastres naturais registados na Europa, devastando uma cidade que, até então, era um dos principais centros urbanos, comerciais e culturais do continente. Estima-se que a cidade tivesse cerca de 250 mil habitantes, e o impacto foi tão brutal que em poucas horas Lisboa deixou de ser a mesma, mudando para sempre o seu destino e a sua identidade.
O sismo, que terá atingido uma magnitude próxima de 9 na escala de Richter, durou entre seis a nove minutos, o suficiente para arrasar edifícios inteiros e provocar o pânico generalizado. Como era Dia de Todos os Santos, grande parte da população encontrava-se nas igrejas, iluminadas com velas, o que fez com que incêndios se propagassem de forma descontrolada logo após o terramoto. Muitas pessoas morreram esmagadas pelas pedras das construções, enquanto outras ficaram presas nas chamas que consumiram boa parte da cidade.
Poucos minutos depois do abalo inicial, Lisboa foi atingida por um enorme tsunami. Três vagas gigantescas submergiram a zona ribeirinha, onde se concentravam armazéns, embarcações e o comércio marítimo. Quem fugira em direção ao rio, pensando encontrar segurança longe dos escombros e do fogo, acabou tragicamente engolido pelas águas. O caos foi total e, em poucas horas, Lisboa parecia uma cidade fantasma, entre cinzas, destroços e corpos.
As consequências humanas foram devastadoras. Calcula-se que tenham morrido entre 30 a 50 mil pessoas em Lisboa, embora haja quem aponte números mais elevados. Mas o impacto não se limitou apenas à capital. O terramoto e o tsunami fizeram-se sentir em toda a costa portuguesa, em partes de Espanha, no norte de África e até em locais tão distantes como as Caraíbas. Foi um acontecimento global, que colocou Lisboa no centro da atenção mundial.
O impacto económico também foi brutal. O porto, coração pulsante da economia lisboeta, ficou destruído, e com ele milhares de toneladas de mercadorias vindas do Brasil e das colónias. As fortunas de comerciantes, banqueiros e aristocratas desapareceram em minutos. O incêndio consumiu tesouros artísticos, bibliotecas, igrejas, palácios e arquivos históricos de valor incalculável. O Mosteiro de São Vicente de Fora, o Palácio Real da Ribeira e grande parte da baixa lisboeta foram completamente arrasados.
O terramoto de 1755 foi, no entanto, também o ponto de partida para uma das maiores transformações urbanísticas da Europa do século XVIII. Sob a direção do Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I, Lisboa foi reconstruída de forma organizada e inovadora. Em vez de deixar a cidade renascer de forma caótica, optou-se por um plano racional e moderno, com ruas largas e retas, formando quarteirões geométricos que ainda hoje marcam a Baixa Pombalina. Este modelo tornou-se pioneiro na Europa, inspirando outras cidades e dando origem ao que hoje chamamos de urbanismo moderno.
Outro aspeto marcante da reconstrução foi a introdução de medidas de segurança sísmica inéditas para a época. Os novos edifícios da Baixa foram construídos com estruturas de madeira em gaiola, flexíveis e capazes de resistir melhor a futuros abalos. Para testar a eficácia destas técnicas, há relatos de que soldados marcharam dentro das construções inacabadas, simulando vibrações. Este espírito prático e científico revelou uma nova forma de enfrentar catástrofes, mais próxima da razão do que da religião.
Do ponto de vista social e cultural, o terramoto também deixou marcas profundas. Durante séculos, muitos viram o desastre como um castigo divino, uma interpretação reforçada pelo facto de ter ocorrido num dia santo. Contudo, o evento despertou também reflexões filosóficas e científicas em toda a Europa. Voltaire escreveu sobre a tragédia no “Poema sobre o desastre de Lisboa” e abordou o tema em “Cândido”, questionando a ideia de que vivemos “no melhor dos mundos possíveis”. Este debate ecoou no Iluminismo, colocando Lisboa como palco de uma discussão internacional sobre fé, ciência e razão.
Lisboa, após 1755, nunca mais voltou a ser a mesma. A cidade medieval, com ruas estreitas e tortuosas, desapareceu em grande parte, dando lugar a uma cidade mais moderna e racional. A tragédia obrigou Portugal a adaptar-se, a repensar a sua economia e a sua posição no mundo. Se por um lado houve perdas irreparáveis em termos de património histórico e humano, por outro a catástrofe impulsionou avanços científicos, arquitetónicos e urbanísticos que moldaram a identidade de Lisboa até aos dias de hoje.
O terramoto de 1755 não foi apenas um desastre natural. Foi um acontecimento que redefiniu uma cidade, transformou um país e deixou uma marca indelével na história da humanidade. Lisboa ergueu-se das cinzas como um símbolo de resiliência e inovação, provando que até nas maiores tragédias é possível encontrar a força para recomeçar.
Há algo de curioso na forma como o Google responde — ou deixa de responder — a pesquisas como “does Trump show signs of dementia”. Recentemente, verificou-se que a funcionalidade de AI Overview do Google, que costuma gerar um resumo automático com base em múltiplas fontes para questões complexas, não apresentou nenhum desses resumos nesse tipo de consulta sobre Donald Trump, ao passo que para perguntas semelhantes sobre ex-presidentes, como Barack Obama ou George W. Bush, o serviço funcionou normalmente.
Quem detetou essa diferença foi o site The Verge, e depois confirmou-se que, no dia 2 de outubro, ao procurar “does Trump show signs of dementia”, o Google limitou-se a exibir os resultados tradicionais (links, excertos) e não o resumo via IA. Já para “does Biden show signs of dementia”, o AI Overview apareceu normalmente — com uma síntese das observações públicas, da opinião de especialistas e das declarações da equipa de Biden.
A porta-voz do Google, Davis Thompson, respondeu que “AI Overviews and AI Mode won’t show a response to every query”, o que significa que nem todas as pesquisas são contempladas por aquele tipo de resposta automática. Ou seja: não é necessariamente um bloqueio deliberado, mas sim uma decisão algorítmica ou de política interna de conteúdo, que pode levar a que algumas perguntas controversas fiquem excluídas desse formato de resposta.
Este episódio não é inocente num momento em que a saúde mental dos líderes políticos orbita em frente do debate público. Donald Trump, que em 20 de janeiro se tornou o presidente mais velho a assumir o cargo, já alimentou especulações ao longo da sua presidência sobre potenciais alterações cognitivas — tendo feito comentários críticos sobre o seu antecessor Joe Biden, que aos 82 anos deixou o poder. Durante a sua campanha e mandato, surgiram lapsos de linguagem, momentos de confusão e referências pouco claras, o que intensificou a atenção sobre o seu estado de saúde mental. Em julho de 2025, a Casa Branca divulgou que Trump fora diagnosticado com insuficiência venosa crónica — considerada “benigna e comum” para quem tem mais de 70 anos —, embora críticos peçam mais transparência sobre exames neurológicos ou cognitivos.
Também é relevante notar que, em janeiro de 2025, a empresa-mãe do Google, a Alphabet, chegou a um acordo de 24,5 milhões de dólares com Trump após ter suspendido a sua conta no YouTube, depois dos acontecimentos de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio.
Este episódio reforça que os algoritmos e as escolhas de apresentação de informação — especialmente em matérias sensíveis como a demência, saúde mental ou política — exercem poder sobre o que o público vê primeiro. Mesmo quando não há uma censura explícita, as decisões internas de plataforma podem silenciar ou atenuar o debate. E num mundo em que a confiança na tecnologia e nos media está cada vez mais conturbada, essas escolhas fazem toda a diferença.
A notícia é perturbadora para o mundo dos sneakers e para quem acompanha marcas independentes de streetwear: Adeel Shams, fundador da famosa loja de revenda CoolKicks, foi detido pela polícia de Los Angeles após uma operação dessa autoridade numa sede da marca.
Segundo registos públicos do Los Angeles County Inmate Information Center, Shams, de 33 anos, foi preso no dia 2 de outubro, por volta das 16h45 (horário local). Foi levado a tribunal por acusações graves atribuídas ao departamento de fraude e falsificação. O registo prisional indica que não foi estabelecida caução e que lhe foi concedida liberdade provisória por reconhecimento, ou seja, foi libertado à espera de julgamento. O próximo ato judicial está marcado para 23 de outubro, no Tribunal Superior de Los Angeles, departamento 30.
A imprensa especializada em calçado urbano e cultura sneaker reagiu com surpresa. CoolKicks não era apenas mais uma loja de revenda: tornou-se um nome forte dentro da cultura urbana, alimentado por conteúdo digital, presença nas redes sociais e uma loja física reconhecida, situada na Melrose Avenue.
Durante a detenção, tudo parece ter acontecido de forma abrupta. Quem estava a assistir à transmissão ao vivo da CoolKicks na plataforma Whatnot viu a emissão ser interrompida de repente, um indício claro de que algo sério estava a acontecer. Pouco depois, começaram a surgir confirmações em redes sociais e em registos oficiais que, juntas, reforçaram a dimensão da operação.
Até agora, a LAPD não emitiu uma declaração formal sobre os pormenores do caso. Sabe-se apenas que uma das divisões envolvidas é a de fraude e falsificação, o que sugere que as acusações podem estar ligadas ao modo como a marca operava financeiramente ou aos processos internos de transações e autenticidade dos artigos. Também circulam relatos de que um armazém da CoolKicks foi alvo da busca policial, mas não há, até ao momento, confirmação sobre os bens apreendidos ou provas específicas.
Este episódio cai como um choque sobre a comunidade de aficionados por streetwear, colecionadores e seguidores da CoolKicks. Em causa está não só a reputação da marca, mas também a transparência nas operações de revenda, a autenticidade dos produtos e a confiança do público. Nos próximos dias, é muito provável que surjam documentos judiciais, interrogatórios e provas que lançarão luz sobre as acusações. Só então será possível perceber se estamos perante irregularidades graves ou uma investigação precipitada. Até lá, permanece o impacto simbólico: uma marca influente, com visibilidade online e offline, agora sob o escrutínio da justiça.
Vercingetórix foi um dos grandes nomes da História da Antiguidade, um líder que soube unir povos diferentes num momento de desespero e de esperança. O seu nome, hoje, é quase sinónimo de resistência e coragem, sobretudo pela forma como enfrentou o poder crescente de Roma e a figura de Júlio César. Mas para entender quem foi este chefe gaulês, é preciso mergulhar não apenas na sua façanha militar, mas também no simbolismo que a sua vida ganhou com o passar dos séculos.
Nascido entre os arvernos, uma das tribos mais poderosas da Gália, Vercingetórix cresceu num mundo marcado por rivalidades internas e pela ameaça constante das legiões romanas. A Gália não era um território unido, mas sim um mosaico de tribos com tradições, chefes e interesses diferentes. Foi precisamente esta fragmentação que permitiu a César avançar com relativa facilidade nas suas primeiras campanhas. No entanto, em 52 a.C., surgiu uma voz capaz de inspirar uma união improvável. Esse homem era Vercingetórix, jovem, carismático e estratega, que conseguiu transformar a diversidade gaulesa numa força comum contra o invasor.
A sua estratégia demonstrava uma compreensão profunda da realidade do momento. Em vez de tentar enfrentar Roma de forma convencional, optou por uma guerra de desgaste: destruir colheitas, privar o inimigo de recursos e obrigar as legiões a viver da escassez. Esta decisão não foi consensual entre as tribos, mas mostrava uma ousadia rara e uma visão que ia além da bravura cega. Foi uma tentativa de usar a própria terra como arma, um sacrifício coletivo em nome da liberdade.
A batalha que marcou para sempre o nome de Vercingetórix foi a de Alésia. Ali, no coração da Gália, César conseguiu cercar os gauleses com uma impressionante obra de engenharia militar. Os relatos de que o exército romano construiu duas linhas de fortificações, uma para cercar os sitiados e outra para proteger-se dos reforços externos, mostram o nível de determinação e engenho romano. Dentro das muralhas, Vercingetórix resistiu com os seus homens, enquanto esperava auxílio de outras tribos. A fome e o desespero tornaram-se companheiros constantes. Do lado de fora, os aliados gauleses tentavam romper o cerco, mas César soube repelir cada ataque.
No final, a derrota foi inevitável. E é neste momento que a figura de Vercingetórix se torna maior do que a própria batalha. Em vez de fugir, como seria compreensível, apresentou-se perante César. A tradição, imortalizada pelos romanos e mais tarde pelos artistas franceses, conta que se entregou de forma digna, montado no seu cavalo, depositando as armas aos pés do general romano. O gesto, ainda que tenha sido o prelúdio de seis anos de cativeiro em Roma e da sua execução após o triunfo de César, foi interpretado como a última afirmação de honra e coragem de um povo derrotado.
O destino de Vercingetórix foi cruel, mas a sua memória não desapareceu. Durante séculos, o seu nome foi lembrado sobretudo como um inimigo vencido. Mas na Idade Moderna e, principalmente, no século XIX, com o despertar do nacionalismo francês, Vercingetórix transformou-se num herói nacional. A França via nele a prova de que já na Antiguidade havia quem tivesse lutado pela unidade e independência da sua terra. Estátuas ergueram-se, a literatura exaltou a sua bravura, e ele tornou-se parte do imaginário coletivo como símbolo da resistência contra a opressão estrangeira.
A figura de Vercingetórix continua a ser inspiradora porque representa mais do que uma simples derrota militar. Representa a força de um povo que, mesmo dividido, foi capaz de se unir num momento decisivo. Representa a ideia de que a liberdade pode valer mais do que a vida. E, talvez, representa também a consciência de que há derrotas que não apagam a grandeza de quem ousou lutar.
Hoje, ao olhar para o nome de Vercingetórix, não vemos apenas um chefe gaulês vencido por César. Vemos a memória de um homem que soube dar voz à resistência de muitos e que, através do seu sacrifício, deixou uma marca que o tempo não conseguiu apagar. A sua história mostra que a dignidade pode sobreviver à derrota, e que os símbolos têm o poder de atravessar séculos, lembrando-nos de que a coragem e a esperança são valores universais.
O Dia Internacional da Não-Violência celebra-se a 2 de outubro, data escolhida por coincidir com o nascimento de Mahatma Gandhi, a figura que se tornou símbolo mundial da resistência pacífica e da luta pelos direitos humanos sem recurso à agressão. Esta data convida-nos a refletir sobre a força transformadora da não-violência e sobre a sua importância numa sociedade onde os conflitos, grandes ou pequenos, continuam a marcar presença no dia a dia.
A ideia de não-violência não se limita à ausência de agressão física. É um princípio mais profundo, que apela ao respeito pela dignidade humana, à empatia e à busca de soluções através do diálogo. Trata-se de um caminho difícil, porque exige disciplina, coragem e a capacidade de resistir ao impulso de responder com a mesma intensidade à ofensa ou à injustiça. Ao longo da História, aqueles que seguiram este princípio demonstraram que é possível alcançar mudanças duradouras sem derramamento de sangue. Gandhi conseguiu mobilizar milhões de pessoas contra o domínio colonial britânico apenas com a força da desobediência civil pacífica, e líderes como Martin Luther King ou Nelson Mandela inspiraram-se nesse exemplo para enfrentar a opressão e o racismo.
Num mundo que continua a testemunhar guerras, extremismos, violência doméstica e intolerância, o Dia Internacional da Não-Violência surge como um apelo à consciência coletiva. Não é apenas um ideal filosófico distante, mas um desafio diário para cada indivíduo. A violência manifesta-se em múltiplas formas, algumas subtis e silenciosas, como a exclusão social, o bullying ou a linguagem agressiva. Escolher a não-violência é recusar contribuir para esse ciclo, procurando construir relações mais justas, humanas e solidárias.
Esta data também nos lembra que a paz não é uma conquista definitiva, mas um trabalho constante. Implica educar as novas gerações para a tolerância, cultivar a capacidade de escutar e de compreender as diferenças, e assumir a responsabilidade de enfrentar os problemas sem recorrer à força. Ao praticar a não-violência, não apenas evitamos o sofrimento imediato, mas criamos bases mais firmes para sociedades coesas e resilientes.
O Dia Internacional da Não-Violência não deve ser apenas um marco simbólico, mas uma inspiração para atitudes concretas. Um gesto de reconciliação, uma palavra em vez de um insulto, um esforço para compreender em vez de julgar, são pequenas ações que, multiplicadas, podem alterar a forma como vivemos em comunidade. Num tempo em que a violência tantas vezes se normaliza ou banaliza, recordar o exemplo de Gandhi e o poder da resistência pacífica é uma oportunidade para repensar a forma como cada um contribui para o mundo em que vive. Afinal, a não-violência não é apenas uma ideia, é uma escolha quotidiana que define quem somos e o que deixamos para o futuro.
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre formaram uma das parcerias intelectuais e pessoais mais notórias do século XX, cuja relação desafiou convenções sociais e influenciou profundamente o pensamento filosófico, literário e político da época. Mais do que simples amantes ou colegas de reflexão, tornaram-se cúmplices na construção de uma filosofia de vida que valorizava a liberdade, a autenticidade e a responsabilidade individual, incluindo no campo do amor, que ambos encaravam de forma radicalmente nova.
O encontro entre Beauvoir e Sartre em 1929, na Sorbonne, marcou o início de uma colaboração intensa. Ambos compartilhavam a inquietação existencialista que emergia da obra de Heidegger e da literatura do seu tempo, preocupando-se com questões como a liberdade, a consciência, a escolha e a autenticidade. Mas a relação deles ia além do intelecto: decidiram manter uma ligação amorosa aberta, rejeitando os laços tradicionais de exclusividade afetiva. Para Sartre e Beauvoir, o amor não deveria ser possessivo, mas uma oportunidade de crescimento mútuo e de afirmação da liberdade individual, um princípio que refletia diretamente os conceitos centrais do existencialismo.
Esta filosofia do amor livre era, no seu contexto, profundamente controversa. A sociedade parisiense dos anos 1930 e 1940 valorizava convenções rígidas em torno do casamento e das relações afetivas. Beauvoir e Sartre, no entanto, recusavam-se a submeter-se a essas normas. Mantinham relações com outros parceiros, sempre com transparência e consentimento mútuo, entendendo que o compromisso não precisava de se confinar à posse, mas sim ao respeito e à solidariedade intelectual e emocional. Essa abordagem não era apenas uma questão de estilo de vida, mas um reflexo coerente de uma filosofia que colocava a liberdade e a autenticidade acima de tradições impostas.
A colaboração intelectual entre os dois foi igualmente intensa. Beauvoir, autora de obras fundamentais como “O Segundo Sexo”, analisou a opressão das mulheres e a construção social da desigualdade de género, enquanto Sartre, com “O Ser e o Nada”, explorava a consciência, a má-fé e a responsabilidade individual. A experiência do amor livre e a vida compartilhada forneciam-lhes não só exemplos concretos para reflexão, mas também um laboratório existencial em que podiam testar ideias sobre liberdade, responsabilidade e ética em relações humanas.
A influência dessa relação vai além da filosofia e da literatura. Beauvoir e Sartre mostraram que as normas sociais poderiam ser questionadas de forma consciente, e que a construção de laços afetivos podia ser compatível com autonomia e crescimento pessoal. A sua vida tornou-se um exemplo — polémico, mas inspirador — de como princípios filosóficos podem orientar escolhas existenciais concretas, desafiando o leitor ou observador a reconsiderar o que significa amar, comprometer-se e viver autenticamente.
No fundo, a relação entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre revela que a filosofia não se limita à reflexão teórica. É também prática, vivida, e capaz de transformar comportamentos, relações e a própria compreensão da liberdade humana. O amor livre, tal como o conceberam, foi tanto um experimento existencial como uma expressão de coerência filosófica, lembrando-nos que viver segundo ideias radicais exige coragem, honestidade e disposição para enfrentar o julgamento social.
Morreu Jane Goodall, aos 91 anos, vítima de causas naturais durante uma tournée de palestras nos Estados Unidos, segundo anunciou o Jane Goodall Institute.
A sua trajetória é lendária — de apaixonada por animais na infância, viajou até África nos anos 50 e estabeleceu-se em Gombe, na Tanzânia, onde revolucionou a primatologia ao mostrar que os chimpanzés utilizam ferramentas, exibem personalidades individuais e mantêm estruturas sociais complexas. Até então, muitos cientistas achavam que essas capacidades eram exclusivas dos humanos.
Mais tarde, transfigurou-se numa voz global da conservação: fundou o Jane Goodall Institute em 1977, lançou o programa educativo “Roots & Shoots” e viajou incansavelmente para alertar sobre as alterações climáticas e a destruição dos habitats naturais.
Recebeu inúmeros reconhecimentos ao longo da vida — entre eles o título de Dame do Império Britânico e, recentemente, a Medalha da Liberdade dos EUA, em 2025.
A sua morte deixa um legado imenso: inspirou gerações para ver os animais não como seres inferiores, mas como parentes de quem devemos cuidar. Cabe-nos agora honrar esse legado — agir, preservar e lembrar que, como ela mesma dizia, “há ainda uma janela de tempo”.
No século XVIII, o Iluminismo europeu trouxe consigo uma revolução não apenas nas ideias, mas também nos espaços onde essas ideias eram discutidas e partilhadas. Entre todos os lugares que marcaram esta época de transformação intelectual, o café destacou-se como um ponto de encontro privilegiado para filósofos, escritores, cientistas e cidadãos curiosos. Mais do que uma simples bebida, o café tornou-se símbolo de um novo espírito: a busca pela razão, o gosto pela conversa crítica e a partilha de conhecimento fora das estruturas tradicionais do poder, como as universidades e a Igreja.
A introdução do café na Europa, vinda do mundo árabe e do Império Otomano, coincidiu com o florescimento de um público interessado em leitura, ciência e política. Londres, Paris, Viena e Berlim conheceram a proliferação de cafés que se transformaram em verdadeiros centros de debate. Chamados por vezes de “penny universities” na Inglaterra, porque bastava uma moeda para entrar, consumir uma chávena e ter acesso a discussões intelectuais, estes espaços abriram a filosofia a camadas mais amplas da sociedade. Não eram lugares exclusivos de elites aristocráticas: comerciantes, advogados, artistas e até viajantes podiam sentar-se lado a lado para trocar ideias.
Em França, o Café Procope, fundado em 1686 em Paris, tornou-se famoso como um dos epicentros do pensamento iluminista. Ali reuniam-se Voltaire, Diderot, Rousseau e outros nomes que viriam a desafiar as instituições estabelecidas. Foi nesse ambiente efervescente que nasceram projetos coletivos como a Enciclopédia, que ambicionava reunir todo o conhecimento humano numa obra acessível e organizada pela razão. O café, nesse sentido, não era apenas um espaço de lazer, mas uma oficina de ideias que questionavam o absolutismo, a superstição e a desigualdade social.
Em Inglaterra, o papel dos cafés foi igualmente transformador. Eram lugares onde se discutiam as novidades científicas de Isaac Newton, as teorias políticas de John Locke e as inovações económicas de Adam Smith. O café estimulava a convivência entre diferentes profissões e estratos sociais, criando uma rede de trocas intelectuais que teria impacto direto no desenvolvimento da ciência moderna, da economia de mercado e da filosofia liberal.
Outro elemento curioso era a ligação entre o café e a prática da leitura. Muitos cafés disponibilizavam jornais e panfletos, permitindo que as conversas se alimentassem não apenas de opinião, mas também de informação atualizada. O hábito de ler em público, discutir e argumentar reforçava a ideia de uma esfera pública crítica, tão valorizada pelos filósofos iluministas.
É também significativo que o café, uma bebida que despertava e estimulava a concentração, contrastasse simbolicamente com o vinho e a cerveja, mais associados ao convívio festivo e à embriaguez. Beber café tornou-se, de certo modo, um gesto intelectual, um estímulo para a mente em sintonia com o espírito racionalista da época.
Ao longo do século XVIII, os cafés espalharam-se por toda a Europa, acompanhando o crescimento de uma sociedade cada vez mais letrada e crítica. Tornaram-se um dos berços do debate democrático e da circulação de ideias que iriam preparar o caminho para grandes transformações políticas, como a Revolução Francesa.
Assim, o café no Iluminismo não foi apenas um local de encontro: foi uma instituição cultural, um símbolo da nova confiança no poder da razão e no valor da conversa aberta. Entre mesas, chávenas fumegantes e debates acalorados, moldou-se uma parte essencial da modernidade europeia.